Cracolândia no bairro Lagoinha é vitrine da ´epidemia´ da droga

Enquanto cresce o uso, governo diz que solução não virá em curto prazo 
OtempoOnline
Enquanto o governo do Estado retoma aos poucos as abordagens de rua aos dependentes químicos e planeja o começo da internação involuntária em Minas - sem o consentimento do paciente -, o crack não para de atrair mais adeptos na maior cracolândia da capital, no bairro Lagoinha, na região Noroeste. A presença de usuários, antes restrita às ruas do entorno do aglomerado Pedreira Prado Lopes (PPL), agora pode ser vista ao redor dos viadutos, em praças, pontos tradicionais de comércio e avenidas movimentadas. O resultado são "zumbis" ignorados pelo poder público, mas que ocupam calçadas imundas e deixam moradores assustados.

A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) admite o fenômeno do crescimento dos dependentes e a consequente migração dos usuários na região. De acordo com o subsecretário de Políticas sobre Drogas, Cloves Benevides, não há uma solução imediata para o problema. Ele aposta em uma série de ações para conseguir recuperar a região, mas isso só deverá vir a médio e longo prazos. "Não temos um prazo para isso. A nossa vontade é que seja amanhã, mas nem sempre os resultados atingem o esperado". Entre as ações do governo, ele destaca as abordagens de rua do Aliança pela Vida, que ficaram os últimos quatro meses suspensas e foram retomadas no mês passado. Ainda neste mês, está prevista uma ação na Lagoinha com apoio do Grupo Especializado de Policiamento de Áreas de Risco (Gepar).


Flagrantes. A reportagem esteve no bairro da Lagoinha nos últimos dias, em diferentes horários, e flagrou com facilidade inúmeras cenas de uso e venda da droga. Os dependentes se reúnem em pequenos grupos e acendem os cachimbos com a pedra do crack sem qualquer discrição.

O consumo é mais intenso na avenida José Bonifácio, que fica ao lado do Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa, rodeada de carros da polícia. No local, há também uma guarita da Polícia Militar (PM), que está sempre vazia. Durante a observação da reportagem, a PM foi vista passando pela cracolândia. Alguns usuários chegaram a ser abordados, porém, sem pedras de crack para comprovar o consumo ou o tráfico, foram liberados na hora. Grupos de usuários acabam se dispersando, mas, poucos minutos depois, todos retornam para as mesmas calçadas repletas de lixo e mau cheiro.


No fim de tarde, o movimento de dependentes se intensifica no entorno do metrô Lagoinha, seguindo pelas ruas Itapecerica, Além Paraíba e Fortaleza. Para especialistas, a solução do problema envolve ações integradas de saúde e segurança. "É preciso dar tratamento aos usuários com campanhas permanentes e reprimir o tráfico", afirmou o cientista político Guaracy Mingard, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública.

Melhorias
Prefeitura diz que não há plano de revitalização
Além de esforços em segurança e saúde pública, moradores e especialistas acreditam que a revitalização do bairro ajudaria a acabar com a cracolândia. Casarões abandonados no local acabam servindo como ponto de uso da droga e moradia dos dependentes. No entanto, a Regional Noroeste informou que o orçamento participativo 2012/2013, que inclui os próximos projetos de obras da capital, não engloba a recuperação da Lagoinha.

Segundo o órgão, havia um plano de revitalização de parte do bairro, mas a proposta não foi escolhida pela comunidade.

Para o movimento Viva Lagoinha, sem revitalização e criação de um centro cultural e de saúde no local que ofereça ocupação e tratamento aos usuários, não haverá mudança. "Queremos que a Lagoinha volte a ser o bairro tradicional do passado", afirmou Filipe Thales, coordenador do Viva Lagoinha.

A arquiteta Ludmila Roque fez um estudo sobre os casarões da rua Itapecerica e sua influência no crack e constatou a ligação direta entre as duas situações. "Muitos estão abandonados e dão abertura para o consumo da droga", observou. (LC)
Em uma noite, sete prisões por tráfico
A dimensão do uso e da venda de droga na Lagoinha se evidencia pelos dados da Polícia Militar (PM). Na madrugada de ontem, sete pessoas foram presas por tráfico de drogas na região, de acordo com o comandante do 34º Batalhão da Polícia Militar – responsável pelo bairro da Lagoinha –, Idzel Fagundes.

Segundo ele, a PM tem mapeado todos os traficantes do bairro e faz operações rotineiramente. Apesar dos esforços, o comandante acredita que a solução para as cracolândias depende mais de ações de saúde pública do que de segurança. "Para acabar com o consumo, só com tratamento de saúde". (LC)

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