Criminalidade de outros estados migra para Minas Gerais


Casos recentes em Minas de crimes comuns em SP, como assaltos a joalherias, arrastões em prédios, explosões de caixas e sequestros relâmpago, assustam moradores e desafiam polícia
Valquiria Lopes - Estado de Minas
 (Marcos Vieira/EM/D.A.Press)
Era uma segunda-feira, 13h. A fisioterapeuta M.C.M.P., de 31 anos, ao lado da empregada, abriu a porta do elevador do prédio onde mora e se deparou com um vizinho sendo refém de assaltantes. As duas foram levadas pelos bandidos e, junto com outras 15 pessoas do edifício residencial localizado no Bairro Gutierrez, na Região Oeste de Belo Horizonte, ficaram presas por quase três horas sob a mira de revólveres enquanto quatro homens faziam um arrastão em apartamentos do condomínio. Eles levaram joias, dinheiro, aparelhos eletrônicos e uma infinidade de pertences das vítimas e M. agora convive com um medo constante. 

O crime, comum em São Paulo, ocorreu em julho, mesmo mês em que assaltantes invadiram um prédio na Rua Carijós, no Centro de Belo Horizonte, e arrombaram 16 lojas. No último fim de semana, moradores de três apartamentos de um condomínio no Bairro Anchieta, na Região Centro-Sul, foram alvo e a modalidade criminosa voltou a desafiar a polícia. Arrastão em prédios, sequestros relâmpago, assaltos a joalherias e explosões de caixas eletrônicos já aterrorizaram os moradores de São Paulo e estão sendo praticados com mais frequência por bandidos em Minas.  
Destes quatro crimes importados do estado paulista para Minas, apenas o sequestro relâmpago é tipificado, incorporado ao Código Penal em 2009 como extorsão mediante restrição da liberdade da vítima. Os outros se misturam nas estatísticas com roubo, furto e assalto.

A onda de assaltos a terminais bancários registrada em Minas já soma 168 ocorrências no estado até setembro, conforme levantamento do Estado de Minas. O número supera em 31,2% todos os crimes desse tipo registrados no ano passado, quando 128 casos ocorreram, e ultrapassa em 84% as 91 explosões de 2010. A modalidade nasceu em São Paulo e rapidamente se espalhou pelo país. Em Minas, encontrou terreno fértil. Com grande número de mineradoras que usam dinamite para explodir rochas e pouca segurança para esse material, os explosivos facilmente caíram em mãos clandestinas. De 1 tonelada roubada no estado, cerca de 600 bananas de dinamite foram recuperadas, o que soma 400 quilos de explosivos, segundo a PM. 

Os casos de assaltos a joalherias registrados entre janeiro e julho (20) representam 90% do total de 22 assaltos em 2011. Apesar de os shoppings terem um maior aparato de segurança e vigilância, os ataques são frequentes neles. Na quarta-feira, por exemplo, uma loja no Shopping Del Rey, no Bairro Caiçara, foi invadida por bandidos, fato que se repetiu. Em março, o mesmo local foi assaltado. Para arrastão as autoridades não têm números de ocorrências, mas levantamento do EM mostra que foram pelo menos quatro só neste ano. Já o sequestro relâmpago foram 21 casos em Belo Horizonte neste ano, número também resultado de apuração do EM. 

Controle
A Polícia Militar reconhece o caráter desafiador que as modalidades especializadas de crime contra o patrimônio impõem à ordem pública. “Não estamos comemorando. Os crimes são preocupantes sim, mas estão em nível de controle”, afirma o comandante de Policiamento da Capital, coronel Rogério Andrade. O chefe da sala de imprensa da PM, major Gilmar Luciano Santos, afirma que em Minas não existem quadrilhas especializadas nas modalidades, diferentemente do que acontece no Rio de Janeiro e São Paulo, segundo ele, mas bandidos que agem pela oportunidade. “Nas ocorrências de explosão de caixa eletrônico, por exemplo, percebemos que alguns usam dinamite para explodir o caixa, enquanto outros estouram toda a agência. Isso mostra um despreparo para lidar com o material e revela que não estamos diante de um grupo organizado”, afirma o major. 

No caso do Gutierrez, a entrada dos bandidos no prédio da fisioterapeuta ocorreu no momento em que uma vizinha fazia mudança. “Muitas pessoas estavam entrando e saindo e foi preciso que o portão ficasse aberto algum tempo. Eles aproveitaram isso para entrar.” Os assaltantes renderam o porteiro e todas as pessoas que passavam pela portaria. A primeira invasão foi no terceiro andar, além do quarto, oitavo e da cobertura. “Foi um dia de muito pavor para todo mundo. Ficamos trancados com um deles, enquanto os outros faziam a limpa nos apartamentos. Tive medo de que algo muito ruim acontecesse”, contou a fisioterapeuta. Depois do arrastão, os moradores investiram em um sistema de monitoramento eletrônico. “Deixo a casa sempre trancada e passei a ficar mais atenta na entrada e saída de casa”, afirmou a mulher, que disse ter ouvido diversos outros casos semelhantes depois que passou pelo drama.    

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