Torcedor é refém de flanelinha


FOTO: FOTOS JOÃO MIRANDA
Pressão. Torcedor que usa carro para ir aos jogos acaba se sentindo na obrigação de pagar pelo serviço, que é ilegal
OtempoOnline
Fim de jogo na Arena do Independência. Feliz por ter visto seu time vencer, o comerciante Paulo César Franco, 43, sobe a rua Bauxita, no bairro Santa Tereza, na região Leste de capital, para pegar o carro. Entretanto, seu rosto é tomado pela revolta quando ele se depara com os dois retrovisores arrancados. "O flanelinha me pediu R$ 20 para olhar o carro, mas eu só paguei R$ 5", disse. No mesmo local, também foram retiradas as peças do carro do administrador Eduardo Campos, 25.

Nas ruas do bairro Horto, onde fica o estádio, na mesma região, e também nos vizinhos Santa Tereza e Sagrada Família, é possível ver vários flanelinhas abordando os veículos e intimidando as pessoas a pagarem antecipado pela ‘olhada’. Assim que começa a partida, praticamente todos vão embora. 
Ao tentar estacionar em três lugares na região, a reportagem flagrou ao menos três flanelinhas abordando os veículos e cobrando R$ 20 insistentemente. Alguns chegavam a abaixar o valor para até R$ 10 se o motorista pechinchasse. "Olha aqui, todos estão pagando, você tem que pagar agora", disse um olhador de carro, mostrando as notas de R$ 10.

A reportagem foi acuada ao se recusar a fazer os pagamentos. Um dos flanelinhas avisou ao colega: "Esse carro aqui não pagou". Exalando bebida alcoólica, outro apelou para a chantagem emocional: "Vai dar azar para o seu time se você não pagar". 

A maioria das pessoas fica com medo de ter o carro depredado e acaba dando o dinheiro exigido. "Quebraram o vidro do meu carro na Savassi uma vez. É melhor pagar do que ter problema depois", disse o engenheiro Vitor Pereira, 31. 

Após perceber que pagou R$ 10 a um flanelinha que lhe indicou uma vaga em local proibido, o estudante Pedro Rocha Nassif, 25, teve que procurar outro local para estacionar. "Vou ter que pagar outro flanelinha", lamentou. O comerciante Sérgio Correia, 55, disse que no estádio do Mineirão ocorria o mesmo. "Cobravam até mais caro. Acabo dando o que tenho". 

De acordo com testemunhas e vítimas, os danos são constantes em dias de jogo. Uma moradora da rua que solicitou anonimato afirmou que já viu um casal roubando retrovisores. "Os flanelinhas vão embora no início do jogo. Outras pessoas tiram as peças com alicate, para revender". 

Flagrantes. Apesar de a regional Leste da prefeitura afirmar que apenas quatro flanelinhas são cadastrados para trabalhar na região, a reportagem flagrou cerca de 15 deles em três ruas que cortam a avenida Silviano Brandão, no Horto. A Polícia Militar não informou o número de ocorrências de danos na região.
PM afirma que combate casos denunciados
A regional Leste da prefeitura alega que a fiscalização dos flanelinhas é responsabilidade da polícia. De acordo com o major Edson Gonçalves, comandante da 20ª Companhia da Polícia Militar, só é possível abordar o flanelinha se a denúncia for feita por uma vítima da extorsão. "As pessoas não podem deixar ‘pra lá’, precisam registrar o boletim para que possamos ter o crime".

Segundo o major, no clássico entre Atlético e Cruzeiro, policiais à paisana puderam constatar o "exercício ilegal da profissão", já que a maioria dos flanelinhas não era cadastrada. "Em dias de jogos ‘normais’, não temos condições de fazer essa ação, mas trabalhamos com a ronda preventiva", afirmou.

Para o sociólogo e especialista em segurança pública Robson Sávio, os flanelinhas agem em bando e sabem que a polícia e o poder público não vão inibi-los. "Na ausência de policiamento, as pessoas ficam refém deles". (JS)

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