Traficantes usam Facebook para venda livre de drogas sintéticas

Produto é entregue pelos Correios, em dois dias; pagamento é feito por boleto 

FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK
Divulgação. Para ganhar confiança do cliente, traficante envia foto de LSD por email para cliente em potencial
OtempoOnline
Em uma negociação rápida e escondidos atrás de perfis falsos, traficantes usam o Facebook, a rede social mais popular no Brasil, com 33 milhões de usuários, para a livre comercialização de drogas sintéticas. A negociação é rápida, o pagamento é facilitado e a entrega é discreta e garantida. Segundo os criminosos, o esquema já existe há anos.

Em uma busca pela rede social, a reportagem encontrou três traficantes. Na maioria das vezes, eles usam páginas de festas de música eletrônica para divulgar o serviço. Um deles disponibiliza um número de celular. 

Logo no primeiro contato, em uma simulação de negociação, um criminoso que disse ser de Brasília explicou tranquilamente suas condições de venda, mostrou a mercadoria por fotos e se ofereceu inclusive para mostrá-las pela webcam. Durante toda a conversa, que evoluiu para um chat online, ele enfatizou a segurança e rapidez da operação. "Fica tranquilo, trabalho com isso há anos e nunca tive problemas". 
A droga é escondida em revistas e gibis e chega ao destino em um prazo médio de dois dias. No caso do Ácido Lisérgico Dietilamida (LSD), conhecido também como doce ou ácido, a remessa mínima é de uma cartela com 25 unidades, que tem preço entre R$ 250 e R$ 380 - que varia de acordo com a concentração de ácido em cada microponto. Quando a compra é feita em quantidades maiores, a droga é escondida em objetos eletrônicos, segundo o traficante.

Dicas. A ousadia é tanta que o criminoso chega a dar dicas de como usar e qual tipo de entorpecente é o mais indicado. Questionado sobre outras drogas, ele diz que só trabalha com sintéticas. "Erva é de difícil despache".

Como as drogas sintéticas não são fabricadas no Brasil, sua comercialização é enquadrada no crime de tráfico internacional - a pena é de cinco a 15 anos de prisão. Assim, é de responsabilidade da Polícia Federal. Procurada, a assessoria da PF não quis se manifestar e não respondeu se os traficantes serão investigados ou se há monitoramento do Facebook. 
Ousadia surpreende até promotoria especializada
A Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos informou que, entre 2008 e setembro deste ano, as denúncias de tráfico pela internet representavam 1% do total de queixas feitas de crimes online ao Ministério Público. Informada pela reportagem sobre a ação dos criminosos, a promotora Vanessa Fusco se mostrou surpresa. "Nunca recebi denúncia de atuações com tamanha ousadia", afirmou. 

A promotora informou que depende da colaboração dos provedores e, em alguns casos, de medidas judiciais que determinem quebra de sigilo para punir os traficantes. "Nosso desafio é fazer com que os provedores se abstenham de publicar perfis que estejam em desacordo com a lei", disse.

Segundo o presidente da ONG Safernet, Thiago Tavares, a falta de infraestrutura das autoridades aliada às barreiras criadas pelas empresas dificulta a punição. "O Brasil precisa avançar nisso, a dinâmica do crime cibernético é incompatível com a burocracia e a demora em atender às demandas. São crimes que exigem providências rápidas para recolhimento de provas". (OR)

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