Rede de rádio ajuda no combate ao crime na Região Centro-Sul de BH

Sistema de comunicação que une porteiros de condomínios se espalha por bairros de alto padrão como resposta a onda de assaltos, em esquema que resulta em acionamento da PM
Funcionários como Wesley Vieira ganharam um aliado na prevenção de crimes, e acabam ajudando até vizinhos que não integram o grupo ( (Alexandre Guzanshe/Em/D.A Press))
Funcionários como Wesley Vieira ganharam um aliado
 na prevenção de crimes, e acabam ajudando até
 vizinhos que não integram o grupo
Do Estado de Minas
Uma rede de comunicação via rádio se espalha entre porteiros e vem ajudando na prevenção de assaltos a prédios residenciais da Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A iniciativa da Associação dos Moradores do Bairro de Lourdes (Amalou), que surge como resposta ataques cada vez mais frequentes a condomínios na capital, começa a se espalhar por outras regiões. “Temos 60 rádios de comunicação. O que um porteiro fala, os outros 59 escutam. Um avisa o outro sobre suspeitos. Além disso, um rádio foi entregue aos policiais militares da Patrulha do Bairro”, disse o representante da entidade, Jeferson Rios.

No vizinho Bairro Santo Agostinho, pelo menos dois assaltos a prédios foram frustrados este ano graças ao alerta dado por porteiros vizinhos, que avisaram os colegas sobre a presença de suspeitos na rua. “O rádio tem sido muito importante para o bairro. E tudo é feito corretamente, dentro do programa Rede de Vizinhos Protegidos”, disse o vice-presidente da Associação do Bairro Santo Agostinho, André Teixeira Gontijo. “Todos os bairros têm condições de fazer isso, cada um com seu modo de operar. Alguns usam apitos para alertar os vizinhos”, completa. 

No Santo Agostinho, segundo André, a rede já chega a 30 condomínios equipados. “Os porteiros têm conseguido abortar várias tentativas de roubo. Recentemente, conseguimos impedir dois assaltos, na Rua Ouro Preto com Matias Cardoso e na Rua Paracatu. Nesse último, ladrões tentavam entrar num prédio que não tem rádio na portaria, mas o vizinho que tinha chamou a polícia e os ladrões fugiram. Os prédios também têm câmeras e as imagens foram passadas para a polícia”, disse André. Seguindo ele, os responsáveis pelas portarias formam um circuito de comunicação. “Há um código de perigo entre eles. O alerta vai se espalhando para toda a rede e também para a polícia”, explica André.

Jeferson Rios conta que ajudou a implantar o sistema de rádio também em condomínios do Cidade Jardim. “Vamos nos reunir com moradores do Bairro Funcionários esta semana. Eles vão criar uma associação de bairro e implantar o sistema de rádio, que tem dado resultados positivos”, disse Jeferson. Segundo ele, no Belvedere há duas associações de bairro, uma do setor que tem prédios, e que conta com o sistema de rádio e menos assaltos, e a área das casas, que tem sido o principal alvo dos ladrões.

Há dois anos, o porteiro Wesley Gadelha Vieira, de 20, trabalha equipado com rádio em um prédio do Santo Agostinho. “Já consegui alertar os colegas e a polícia sobre um roubo na drogaria ao lado. Os ladrões já tinham fugido e o pessoal da loja pediu minha ajuda. Quando tem algum suspeito rondando os carros, olhando demais para motos ou para estabelecimentos comerciais, eu logo aviso os outros porteiros. A polícia vem e faz a abordagem”, explica.

O comandante do 22º Batalhão, tenente-coronel Alfredo Veloso, responsável pelo policiamento na Região Centro-Sul da capital, disse que a PM deu as orientações de como a Rede de Vizinhos Protegidos deveria ser operada e os moradores agregaram o rádio para facilitar a comunicação entre eles. “No passado, havia o telefone celular comunitário. Com o rádio, o custo é menor e são mais pessoas conectadas ao mesmo tempo, o que amplia o contato entre vizinhos”, disse o coronel. “O principal conceito do rádio é a comunicação entre eles e todo acionamento da PM deve ser pelo telefone 190, que tem o diálogo gravado. Se cada associação deixar um rádio no quartel, não teremos condições de escutar todo mundo”, alertou Veloso.
 Vítimas se abalam ao falar da tortura
As regiões Centro-Sul, Noroeste e Pampulha, em Belo Horizonte, têm enfrentado uma onda de ataques a prédios residenciais, em ações na maioria das vezes muito violentas. Há uma semana, mais de 15 vítimas de roubos reconheceram três acusados presos no Bairro Belvedere, na Região Centro-Sul, como integrantes da quadrilha que as atacou. A comerciante G. M. B. de 47 anos, não conseguiu conter o choro ao avistar, na delegacia, dois dos cinco presos, que a torturaram por uma hora e meia, na manhã de 27 de março, em sua casa, no Bairro Bandeirantes, na Pampulha. “Um verdadeiro terror. Eles me violentaram emocionalmente, me torturaram o tempo todo. Apanhei do portão até dentro da minha casa. Fizeram barbaridades comigo e a empregada. Pegaram o motoqueiro da rua e também o fizeram refém na minha casa. Eram coronhadas, roleta-russa na minha cabeça, o medo de levar um tiro. Apanhei mais porque tentei defender a minha filha de 17 anos, que eles tentaram estuprar”, disse a vítima. “Apanhei tanto que não aguentei ficar sentada depois, no Instituto Médico Legal, para onde a polícia me levou para o exame de corpo de delito. Estou toda roxa até hoje”, relatou a comerciante. 

Uma engenheira de 28 anos também saiu da sala de reconhecimento aos prantos. Há duas semanas, o prédio dela, no Bairro Castelo, na Região Noroeste, foi invadido pela segunda vez, por quatro homens fortemente armados. “Entraram em 22 apartamentos e levaram mais de 15 reféns para a minha casa, entre moradores e prestadores de serviço”, disse. “O tempo todo eles ameaçavam matar a gente. A tortura psicológica foi muito grande”, disse. O vizinho dela, o volante do Atlético Leandro Donizete, não estava na hora. O apartamento dele foi arrombado. 

Um americano teve o apartamento invadido no Bairro Santa Lúcia, Região Centro-Sul. Ele foi espancado pelos ladrões, que ameaçavam cortar a sua orelha. A funcionária da vítima acompanhou tudo. “Eu tentei correr, mas fiquei com medo de morrer. Perdi o jogo das pernas. Eram agressivos demais, xingavam muito, mas não maltratara a mim e nem a filha adotiva do meu patrão. Ele, sim, apanhou demais. É mais velho, levou coronhadas, socos, chutes. Sentia a dor calado, pois eles ameaçavam arrancar sua orelha com o alicate”, disse. Enquanto os criminosos agiam, a mulher, a filha da vítima e o vigia da rua foram mantidos deitados na cama, com o rosto virado para o colchão e com um cobertor jogado por cima.

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