CHACINA DE UNAÍ : Réus negam participação no crime e alegam ter sofrido tortura e perseguição

Enquanto Erinaldo Silva confessou e pediu perdão, Rogério afirmou que todas provas que a PF tem contra ele são falsas e, assim como Willian Miranda, nega envolvimento na chacina

Apontado com um dos pistoleiros do crime que ficou conhecido como Chacina de Unaí, Rogério Allan Rocha Rios foi o penúltimo a ser ouvido no terceiro dia de julgamento e negou qualquer participação nas mortes. Ele confirmou o que disseram as testemunhas de defesa e afirmou que, no dia das mortes dos três fiscais do Ministério do Trabalho e do motorista que trabalhava com eles, estava em Salvador (BA). Seu advogado de defesa disse que Rios só confessou o crime anteriormente porque foi torturado e ameaçado.
Segundo Rogério, são falsas as provas que a Polícia Federal tem contra ele, assim como a carta escrita para Erinaldo falando sobre o crime e sua assinatura no hotel onde teriam ficados  hospedados os pistoleiros um dia antes da execução. Rios jogou a responsabilidade sobre um ex-cunhado, com quem diz ter sido confundido, e afirmou que o homem participou da chacina.
"Eu não sei quem escreveu a carta, mas não fui eu. Já sobre o hotel, acredito que um ex-cunhado meu, o Mauro de Jesus, tenha usado os dados dele. Isso porque, dias antes do crime, eu tinha passado um xerox de um documento de identidade meu para resolver uma dívida que eu tinha", disse Rios em depoimento na sede da Justiça Federal, em Belo Horizonte.

O réu afirmou que estava em Salvador trabalhando como motorista para um espanhol. Porém, as investigações da polícia dão conta que esse estrangeiro só chegou ao Brasil no dia 8 de fevereiro, 11 dias depois da chacina.

Questionado pela juíza Raquel Vasconcelos sobre sua participação do crime, Rogério disse: "Eu não sou santo, não, mas desse crime de Unaí eu não participei. É o Erinaldo quem tem que explicar esse crime". Rios se negou a responder as perguntas da acusação.

O advogado de defesa dele, Sérgio Moutinho, fez uma série de perguntas a seu cliente e tentou cravar que ele só confessou o crime à polícia porque foi agredido pelos policiais. "Eu fiz xixi na calça, por que não me deixaram ir ao banheiro. Colocaram um saco na minha cabeça. Disseram que, se eu não assinasse a bronca, não sairia dali vivo", afirmou o réu, informando, ainda, que os outros pistoleiros também sofreram agressões.

Rios negou o que algumas testemunhas e a acusação afirmaram e disse que não recebeu proposta do fazendeiro Norberto Mânica para que confessasse o crime como latrocínio (roubo seguido de homicídio). Além disso, afirmou que nunca esteve na cidade de Unaí. O depoimento dele durou 40 minutos.

O último réu a ser interrogado foi Willian Gomes de Miranda, que, assim como Rios, negou participação no crime. O interrogatório dele começou às 22h10, e o acusado não quis responder as perguntas da juíza nem as da acusação. "Tenho medo. Já fui ameaçado de morte", justificou.

Ao seu advogado de defesa, Celso Rezende, ele disse que era motorista de Francisco Pinheiro, mas que não participou da chacina. "Eu nunca portei arma de fogo. Ao longo destes quase dez anos em que estive preso, fui vítima de muita covardia", afirmou.

Confusão

Os advogados de defesa reclamaram com a juíza que os procuradores estavam debochando dos réus e pediu que fosse mudada a posição dos acusados durante o interrogatório, que ficam de frente para a acusação e de costas para os defensores.A juíza advertiu a procuradoria e pediu que o microfone dos defensores fosse cortado, já que eles estavam se exaltando. "Não vamos iniciar uma briga agora", disse a magistrada.

À tarde
Em depoimento, na tarde desta quinta, o réu Erinaldo de Vasconcelos Silva, acusado de participar do assassinato de quatro fiscais do trabalho no episódio que ficou conhecido como a Chacina de Unaí, chorou e pediu perdão às famílias das vítimas. Muito emocionado, ele preferiu se retirar do tribunal e não respondeu as perguntas da defesa.Durante a tarde, Erinaldo respondeu as perguntas da acusação e confessou ter atirado em dois dos quatro fiscais que foram mortos. Ele confirmou o envolvimento de outros sete acusados no crime e disse que recebeu entre R$ 40 mil e R$ 50 mil para executar as vítimas.
O acusado confirmou que foi contratado por Francisco Pinheiro, que seria um agenciador de pistoleiros e morreu em janeiro deste ano, para executar Nelson José da Silva. "O Francisco me ligou e me pediu para matar uma pessoa que estava dando trabalho", contou. O réu afirmou, ainda, que Pinheiro e o empresário José Alberto de Castro, também acusado do crime,  disseram que ele não conseguiria fazer o trabalho sozinho e que precisaria de ajudantes. Foi quando ele conheceu os pistoleiros Willian Gomes de Miranda e Rogério Alan Rocha Rios, que também estão sendo julgados pela execução dos trabalhadores.
Ainda segundo Erinaldo, Rogério Alan Rocha Rios teria atirado nos outros dois fiscais assassinados. Ele disse que não conhecia Mânica na época em que foi contratado, mas afirmou que sabia que o fazendeiro era o mandante do crime.O advogado de Erinaldo, Antônio Oliveira Filho, solicitou o benefício da delação premiada para seu cliente, mas a Justiça ainda não emitiu parecer sobre o pedido.
Julgamento
Começou na manhã desta quinta-feira (29) o terceiro dia do julgamento dos três homens acusados de assassinar quatro servidores do Ministério do Trabalho em Unaí, no Norte do Estado. A sessão acontece na capital, na sede da Justiça Federal de 1º Grau em Minas Gerais. A parte da manhã foi usada para apresentações de vídeos, escuta telefônica e leituras das atas do processo. Rogério Alan Rocha Rios, William Gomes de Miranda e Erinaldo de Vasconcelos Silva devem prestar depoimento após o horário de almoço.
O advogado de Miranda, Celso Rezende, começou a apresentar sua defesa e afirmou que o seu cliente não sabia do crime. Segundo ele, o réu teria sido contratado por Francisco Pinheiro, que também era acusado no processo, mas faleceu em janeiro deste ano, para levar um carro de Formosa, em Goiás, até Unaí. Ele teria recebido R$ 250 por dois dias de trabalho.Chegando ao local, ele teria percebido que algo estranho poderia acontecer, mas não acionou a polícia com medo de ser morto.
Nessa quarta-feira (28), o segundo dia de audiência foi marcado pelo depoimento do réu Hugo Pimenta. O homem confirmou que o fazendeiro Norberto Mânica ofereceu dinheiro para que pistoleiros confessassem o crime de latrocínio. A revelação, que já tinha sido adiantada pela Procuradoria da República nessa terça-feira (27), aconteceu devido um acordo de delação premiada entre Pimenta e o Ministério Público em 2007.O trato garantiu a liberdade provisória do réu na época do crime e a redução de pena em dois terços, em caso de condenação.
Crime
Os assassinatos aconteceram em janeiro de 2004. Três auditores fiscais e um motorista foram mortos em uma emboscada enquanto vistoriavam fazendas e pequenas propriedades rurais da região de Unaí.O objetivo era averiguar denúncias de existência de trabalho escravo na região e combater eventuais irregularidades trabalhistas.
Fonte: OtempoOnline

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