Zona Sul de BH vive atrás das grades por causa de onda de arrombamentos

Lojistas de bairros como Sion e Anchieta denunciam onda de arrombamentos e tentam se proteger atrás de estruturas de aço e de vigilância eletrônica. Motoristas também se queixam de roubos, mas, para a polícia, criminalidade na área está em queda
A empresária Joana Paixão transformou a loja em uma fortaleza após cinco tentativas de roubo (Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS)
A empresária Joana Paixão transformou
 a loja em uma fortaleza após cinco tentativas de roubo
A agenda do serralheiro Valdo Luiz Magalhães, que tem clientela em bairros da Zona Sul de Belo Horizonte, anda cheia. E novas demandas não param de chegar: todo dia ele recebe pelo menos um pedido de orçamento para instalação de grades, portões de aço ou conserto de portas em estabelecimentos comerciais na região. Neste mês, já foram seis serviços contratados só para reparar estruturas danificadas por ladrões, especialmente nos bairros Sion e Anchieta. Apesar de a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) afirmar que houve redução no número de arrombamentos na capital desde 2012 (de 3,2 mil para 2,8 mil, considerando o primeiro semestre de cada ano), a sensação que se percebe ao ouvir lojistas é de medo, motivado por relatos de invasões rotineiras a estabelecimentos, especialmente nas madrugadas. A apreensão se estende a outros bairros da Região Centro-Sul. Em alguns, como Funcionários e Santo Antônio, motoristas também têm sido vítimas de arrombamento de veículos e o temor é de um encontro cara a cara com criminosos. 

“Já fiz serviço para um chaveiro e um escritório na Rua Grão Mogol (Sion), um restaurante na Rua Francisco Deslandes (Anchieta), uma loja de informática na Savassi (Funcionários), e sei de outros casos. O trabalho aumentou”, relata o serralheiro Valdo. Um de seus clientes é o chaveiro André Gonçalves, de 32 anos. Em 9 de outubro a pequena loja na esquina das ruas Grão Mogol e Montevidéu foi arrombada. “Quebraram a porta de aço e levaram quase tudo: computador, ferramentas e até uma caixa de cartões de visita”, diz ele, que estima o prejuízo em R$ 4 mil. Um novo alarme foi instalado para comunicá-lo de forma instantânea, no celular, se algo ocorrer. “Além de ser vítima, faço reparos com frequência em fechaduras de veículos arrombados nesta área”, acrescenta.


Vítima de três invasões desde 2009, advogado Átila Nicoli já gastou R$ 5 mil em segurança (Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS)
Vítima de três invasões desde 2009, advogado Átila Nicoli já gastou R$ 5 mil em segurança
Vizinho do chaveiro, o advogado Átila Nicoli, de 38, já teve de providenciar a instalação de quatro grades de ferro na tentativa de proteger os vidros da fachada do escritório do qual é sócio. Foram três invasões desde 2009, a última há 30 dias, quando foram levados computadores. Depois dos aborrecimentos e prejuízos, os gastos com segurança já somam R$ 5 mil. “Tem apenas um policial militar que anda de bicicleta por aqui. Os carros são danificados com frequência e ninguém faz nada. Com a proximidade da Avenida Nossa Senhora do Carmo, fica fácil para eles fugirem”, diz ele.

A um quarteirão, a loja de sapatos da empresária Joana Paixão, de 32, hoje mais parece uma fortaleza. O que poderia passar por exagero explica-se pelos últimos acontecimentos: em apenas uma semana, foram cinco tentativas de arrombamento. Agora a loja está protegida por um portão, na entrada que dá acesso a toda a galeria, um segundo portão, que tem pontas de ferro e um alarme conectado a um sensor infravermelho, além de mais uma porta, reforçada por grades, alarme e comando eletrônico, sem contar o interfone, que conta com câmera. “Ficamos com medo, pois uma hora eles conseguiriam entrar”, diz. Ela é categórica ao reclamar da falta de policiamento no Sion, que expõe moradores à ousadia dos bandidos. “Eu e os demais comerciantes desse quarteirão estamos acertando a contratação de um vigia armado”, anuncia.

No Bairro Anchieta, também há problemas na Rua Francisco Deslandes. Lá, Carlos Roberto de Almeida, de 34, gerente de um restaurante, precisou mandar consertar a porta de aço danificada no último dia 15, quando ladrões levaram bebidas e computadores. Para o presidente da associação dos moradores do bairro (Amoran), Paulo Omar Nascimento, a situação não é diferente das demais regiões da cidade, onde há ocorrências diariamente e a polícia não dá conta da demanda. O representante dos moradores afirmou que o posto da PM na Rua Joaquim Linhares funciona apenas das 7h às 23h, por falta de efetivo. 

O major Roberto Câmara, comandante da 127ª Companhia da PM e responsável pelos bairros Sion e Anchieta, sustenta não haver aumento de arrombamentos na região, apesar de não informar os números relativos à criminalidade nos dois bairros. Segundo ele, a mobilização de um grupo de 14 motociclistas para servir ao 22º Batalhão contribuiu para aumentar a segurança. Sobre a situação em postos, ele garantiu que o policiamento é mais eficaz fora da unidade. “No caso do Anchieta, não há demanda da população depois das 22h. Por isso, o resultado é melhor empregando o militar para patrulhar as ruas.”

Carros também estão no alvo

Os roubos em bairros da Zona Sul não dão prejuízos apenas a lojistas. Seus clientes também são frequentemente surpreendidos por ladrões. Uma das vítimas foi o estudante de direito Álvaro Marra, de 20, que teve seu Ford Ka aberto duas vezes em apenas uma semana, em agosto. A primeira foi na Rua Congonhas, no Bairro Santo Antônio. Ele saía de uma boate por volta das 3h30, quando encontrou o veículo com a porta escancarada. “Levaram perfume, a carteira com R$ 200, roupas, um par de sapatos, câmera fotográfica, até bichinho de pelúcia”, conta. O prejuízo incluiu o dinheiro gasto para consertar a fechadura. “Na mesma rua, havia pelo menos outros quatro carros arrombados.” No sábado seguinte, Álvaro saiu de um bar na Rua Levindo Lopes, na Savassi, e voltou a encontrar o carro com a porta aberta. Dessa vez, pelo menos, não havia nada dentro do veículo. Apesar do aborrecimento, ele não prestou queixa dos incidentes.

O professor Ângelo Bagni, de 31, foi outra vítima. Ele teve seu Fiat Uno arrombado há cerca de quatro meses, na Rua Nunes Vieira, no Bairro Santo Antônio. Por volta das 9h de um sábado, logo após sair do cursinho onde dá aula, ele achou o veículo escancarado. “Quebraram o vidro e levaram minha mochila, com um notebook”, recorda ele, que registrou boletim de ocorrência, mas não teve os pertences recuperados. “Desde então, não deixo mais nada no carro”, afirma.

A Seds não informou o número de arrombamentos de veículos na Região Centro-Sul, mas o tenente-coronel Alfredo Veloso, comandante do 22º Batalhão da PM – responsável por bairros como São Pedro, Santo Antônio, São Bento e Mangabeiras – reconhece que o problema é frequente. “É recorrente, em função da grande quantidade de veículos nas ruas. Há uma concentração significativa de bares e casas noturnas. Mas, considerando essas condições, acreditamos que o problema está sob controle”, afirma.

Fonte:Estado de Minas

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